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Cultura

 
 
A Datilógrafa
Fonte: O Estado de S.Paulo

Luiz Zanin

 

A Datilógrafa

 

Não são apenas norte-americanos – e brasileiros – que fazem comédias românticas. Os franceses também. E, sem dúvida, com um toque de originalidade, a julgar por este  A Datilógrafa, de Régis Roinsard.

Simples, mas não simplório, A Datilógrafa conta a história de uma mocinha do interior, Rose Pamphyle (Déborah François), destinada a casar com um garagista, mas que decide tentar a sorte numa cidade maior, Lisieux, no caso. Ela se candidata ao emprego de secretária em uma agência de seguros, mas a entrevista é um fracasso. A não ser por um detalhe – a garota revela-se uma datilógrafa impressionante, com velocidade de campeã.

Sim, a palavra esportiva se aplica no caso. Estamos nos anos 1950 e na época eram comuns os campeonatos de velocidade entre as datilógrafas, em especial nos Estados Unidos, mas também um pouco em toda parte. O novo patrão, Louis Echart (Romain Duris), dá o emprego a Rose, contanto que ela concorde em participar desses concursos de atletismo datilográfico. A contragosto, a moça concorda.

O filme é de época e ganha uma direção de arte interessante. É bastante colorido e envolto em atmosfera de fábula. Como se, de fato, ao evocar o clima dos anos 1950, nos viesse à cabeça certa aura romântica. Eram, de fato, os anos em que saíam do imediato após-guerra. As sociedades europeias haviam se reconstruído e, de certa maneira, americanizavam-se, dada a influência mundial que os Estados Unidos ganharam após a campanha contra os nazistas. A Guerra Fria ainda não era tão explícita, e o mundo, ou parte dele, podia sentir essa sensação de bem-estar que se tem quando o perigo imediato foi afastado. Se os anos 1960 são os anos rebeldes, os 1950 são tidos sempre como os anos dourados da bonança. Esse é o tom do filme, mas passado apenas em filigrana, à contraluz, e nada explícito.

O que se tem é apenas essa mocinha, cujo dom natural para a velocidade é desenvolvido, tentando agradar a um jovem reticente como Louis. Há, também, na trama o espírito competitivo da França em relação aos Estados Unidos. Afinal, antes de ser desbancada por Nova York no imaginário mundial, Paris julgava-se o centro do mundo inteligente. Existe esse ar de revanche francês, porém leve, e feito com muita elegância, como convém ao europeu que não se curva à vulgaridade do Novo Mundo embora corteje seus modismos.

Vendo-o assim, A Datilógrafa ameaça transbordar os limites do gênero a que o julgávamos circunscrito. Há alguns mistérios e assimetrias que não cabem de hábito numa comédia romântica clássica. Caso mais notório da estranha relação entre Louis e Rose, ela morrendo de desejo de cair nos braços do patrão, ele cegamente empenhado numa competição meio sentido. Ainda mais que, para preparar sua pupila para os concursos, usa de técnicas de fato torturantes.

Desse modo, e por outros detalhes que convém não comentar, A Datilógrafa é, ao mesmo tempo comédia romântica e questionamento do próprio gênero, inclusive do happy end obrigatório.

Mais misteriosa ainda fica se atentarmos para o título original francês, Populaire (Popular), muito mais ambíguo que o anódino título escolhido para o lançamento no Brasil.

 

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