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Cultura

 
 
A fé que preserva a História: memória e identidade na salvaguarda da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Itajuípe -BA
Por: Thaís Vinhas*

livro

*Thaís Vinhas -  graduada em História pela UESC, Mestre em Cultura e Turismo pela UESC/UFBA. Professora da Universidade do Estado da Bahia - UNEB - Campus XVIII - Eunápolis. 

 

Introdução:

 

            O processo de colonização portuguesa no Brasil representou, para além do domínio territorial e econômico, a configuração de um novo espaço religioso tendo como fundamento a matriz católica europeia. As ações de oficialização da chegada da frota cabralina no ano de 1500 revelam as intencionalidades de expansão religiosa da Coroa de Portugal. A celebração de uma missa em seus primeiros dias em solo brasileiro deixa entrever essa intencionalidade, perceptível nos relatos posteriores enviados ao rei português pelo escrivão Pero Vaz de Caminha quando sinaliza, a partir da sua visão interpretativa, um possível anseio das “almas” aqui encontradas de conhecerem os princípios cristãos propagados pelo catolicismo. Sobre essa perspectiva, evidenciava-se como fundamental a presença católica no território que visavam colonizar.

Simbolicamente, esse fato marca o início da história da igreja Católica no Brasil. No período colonial, a consolidação dessa inserção relaciona-se diretamente com o processo de constituição de territórios diocesanos nas áreas de povoamento estabelecidas pelo governo português através da ação integrada entre a Igreja e o Estado, estruturada no formato do Padroado Regio[1], como forma de garantir a implantação da fé católica nos espaços colonizados por Portugal.  Assim, no ano de 1551 se estabelece a primeira Diocese em solo brasileiro implantada em Salvador, então capital da colônia, inaugurando um processo lento e gradual de configuração da territorialidade religiosa da Igreja Católica brasileira.

No desenvolvimento histórico do território, a medida que se adensava o povoamento, tornava-se imperativo a difusão do catolicismo, considerada desde o período colonial como religião oficial.

Entretanto, ao longo dos cinco séculos da presença católica no Brasil, esse movimento se construiu de forma heterogênea, sendo marcado pela dinâmica do tempo e do espaço que refreou ou intensificou, conforme a conjuntura política e econômica de cada período, a expansão do espaço católico através da implantação de unidades diocesanas que agregavam inúmeras paróquias em sua área de inserção. Dados estatísticos da Igreja sinalizam que no período compreendido entre a colônia e o império foram criadas doze dioceses no país. Esses dados crescem de forma significativa nas primeiras quatro décadas do Brasil republicado, quando há uma aceleração na criação de Dioceses, totalizando sessenta e oito novas unidades.[2]

Nessa caminhada histórica, no ano de 1913 foi criada a Diocese de Ilhéus como resultado de um desmembramento da Arquidiocese de Salvador, até então responsável pela gestão religiosa no Estado. A deliberação para a instituição de um território diocesano no sul da Bahia se justifica pela nova dinâmica econômica vivenciada pelo desenvolvimento da lavoura cacaueira na região, que teve início no final do século XIX e alcançou seu auge nas primeiras décadas do século XX. Assim, o cultivo do cacau impulsionou economicamente o território sulbaiano, desenhando uma nova geografia espacial e constituindo uma realidade sociocultural religiosa fortemente influenciada pelo catolicismo.

No limiar do século XXI, a presença católica no território é perceptível através das inúmeras igrejas e capelas presentes nos municípios, povoados, nas antigas fazendas de cacau, nas festividades tradicionais baseadas nas celebrações dos santos católicos, dentre outras tantas marcas tangíveis e intangíveis que hoje caracterizam e identificam as diferentes comunidades católicas existentes no sul da Bahia.

Essa realidade regional é o retrato de um contexto nacional construído ao longo da trajetória histórica da Igreja Católica em solo brasileiro. O resultado desse processo revela-se no patrimônio cultural católico que atualmente constitui uma referência identitária para parte significativa da população brasileira que assumiu o catolicismo como prática religiosa de vida, e que reconhece em seus símbolos materiais e imateriais parte essencial de sua história e identidade.

Na busca por entender aspectos relacionados à preservação do patrimônio cultural católico no Brasil a partir da mobilização de comunidades que reconhecem nesses bens elementos significativos de sua história, memória e identidade, o presente estudo tem como objetivo analisar as ações empreendidas pela comunidade católica itajuipense, localizada no sul da Bahia, para a restauração e salvaguarda da Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus. O direcionamento teórico que fundamentará a pesquisa centra-se na concepção de que a eficácia das ações para preservação do patrimônio perpassa, essencialmente, pelo vínculo afetivo estabelecido entre comunidade e seu legado histórico-cultural.

 

Patrimônio cultural, memória e identidade: a necessária relação entre comunidade local e preservação patrimonial

 

O processo histórico de constituição das sociedades se deu a partir da vivência e interação do homem com seus semelhantes e com o meio natural. Nesse processo, os indivíduos elaboraram um complexo sistema de signos e significados para direcionar às suas ações. Ao se fixarem em um espaço e organizarem a vida social, criaram um conjunto de elementos simbólicos que conduziram e deram sentido à existência humana. Esse conjunto de elementos desenvolvidos na vida social ao longo do tempo caracteriza-se como a cultura dos diferentes grupos sociais. (CUCHE, 2002)

Construída a partir de um processo acumulativo das vivências compartilhadas na vida em sociedade, a cultura revela as diversas formas de apreensão da realidade em diferentes tempos e espaços. Margeia o campo do concreto e do abstrato, revelando crenças, sentimentos, percepções de mundo que muitas vezes se materializa nos vestígios que são deixados por esses grupos em sua trajetória histórica. Dentre esse amplo universo de aspectos que constituem o legado de um povo, encontram-se os monumentos que compõem o patrimônio arquitetônico cultural de determinada sociedade.

Etimologicamente a palavra patrimônio remete à antiguidade, tendo em sua raiz o termo em latim pater, relativo a pai, pátria.  Kersten (2000) afirma que a construção do conceito de patrimônio estruturou-se na junção dos termos grego Kleronomia (posse) e mnéïmon ( memória que advém do objeto), do latim monumentum  (obra do passado ou edificação comemorativa) e do alemão Denkmal ( Denk – o ato de pensar sobre/ Mal – marca) e Kuturget (herança de uma civilização). Esse processo resultou na acepção clássica da palavra, definida como sendo a herança que se recebe do passado e que serve como referência para uma sociedade, acrescentando em sua nomenclatura o adjetivo histórico.

            Entre o final do século XVIII e início do XIX a valorização do patrimônio histórico e a preocupação com a sua preservação ganharam força após as revoluções Francesa e Industrial, consideradas como momentos de destruição do legado cultural que possuía representatividade para as sociedades em que se circunscreviam. Na iminência da perda, as atenções voltam-se para o patrimônio e sua preservação, com abertura de um campo de estudo com ênfase à problemática.

            No ocaso dos oitocentos e início do século XX há um processo de ressignificação do conceito de patrimônio histórico impulsionado pelos estudos desenvolvidos acerca da noção de cultura, que passa a representar tudo aquilo que era produzido a partir de uma vivência compartilhada na vida em sociedade. Assim, a compreensão acerca do patrimônio ganha novas dimensões, passando a referir-se às construções representativas de uma coletividade com significados definidos na vida social, sendo, portanto, referência da história, memória e identidade de diferentes grupos. Nesse sentido, ao adjetivo histórico acrescentou-se o termo cultural, ampliando assim  a noção de patrimônio como produção inerente a todo grupo social em sua caminhada ao longo do tempo. (LARAIA, 1997)

Esse processo possibilitou o reconhecimento do valor do patrimônio cultural enquanto referência individual e coletiva, tornado  sua preservação um fator relevante para as sociedades.

Esse período marcou um momento de intensivo movimento de preservação patrimonial empreendido por organismos institucionais, com o objetivo de estruturar meios de salvaguardar a herança histórica e cultural das sociedades. Nesse contexto, foram criadas organizações voltadas a preservação patrimonial tanto em nível internacional como nacional, que deliberaram mecanismos oficiais de salvaguarda patrimonial alicerçados em cartas, convenções e diretrizes que nortearam a política patrimonial em âmbito mundial a partir do século XX.

Entretanto, apesar da elaboração desses instrumentos para a preservação do patrimônio cultural, ao longo do tempo esse direcionamento não se mostrou eficaz. Diversos estudos (FONSECA , 2005; GONÇALVES, 1996; ABREU; CHAGAS, 2003)  revelaram que a principal questão em relação a não valorização do patrimônio cultural e seu consequente desaparecimento ocorriam, em sua grande parte,  em espaços em que não havia uma relação efetiva entre o patrimônio cultural e o grupo social onde ele estava inserido, por não reconhecer esses bens enquanto referência de cultura, memória e identidade.

Sob essa perspectiva, novo encaminhamento foi dado às diretrizes de preservação patrimonial, colocando a necessária e fundamental relação entre comunidade local e patrimônio como principal mecanismo de efetivação das políticas de salvaguarda dos bens patrimoniais.

Assim, a questão concernente à preservação do patrimônio cultural  na contemporaneidade perpassa, em primeira instância, pela inserção da comunidade local a partir do reconhecimento do patrimônio enquanto referência de memória e identidade.

            Essa premissa é considerada não apenas para garantir o aspecto cultural e social da preservação, mas também seu aspecto físico, uma vez que tendo a capacidade de referenciar um grupo de indivíduos, sua sobrevivência no tempo e no espaço passa a ser uma necessidade reivindicada por esse grupo.

            Dessa forma, as ações voltadas à salvaguarda patrimonial, percebendo a relevância do estabelecimento dessa relação, passaram a considerar o envolvimento da comunidade como fundamento para as políticas de preservação do legado de distintas sociedades.

            A Carta Internacional para a Conservação das Cidades Históricas de 1986, ressaltou sobre a importância da adesão dos habitantes locais nas políticas e ações preservacionistas:

 

A participação e o comprometimento dos habitantes da cidade são indispensáveis ao êxito da salvaguarda e devem ser estimulados. Não se deve, jamais esquecer que a salvaguarda das cidades e bairros históricos diz respeito primeiramente a seus habitantes. (CARTA INTERNACIONAL PARA A CONSERVAÇÃO DAS CIDADES HISTÓRICAS, 1986, p.2)           

 

Esse pressuposto teve como embasamento a percepção de que o envolvimento da comunidade em ações preservacionistas se viabiliza através do conhecimento acerca da história, reconhecendo no presente as evidências do seu passado histórico, muitas vezes representado pelo patrimônio cultural,  uma vez que é na busca pela identificação com o grupo social no qual se encontram inseridos que os indivíduos recorrem à memória na tentativa de dar sentido à sua história e às suas origens.  Jacques Le Goff  (1996, p.476 )  afirma que:

 

A memória é um elemento essencial do que costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais  dos indivíduos e da sociedade hoje,  na febre e na angústia.                                                                                                                  

 

 

A percepção do patrimônio enquanto elemento de vinculação entre indivíduo e grupo social a partir das suas construções culturais realizadas ao longo do tempo serviu de estímulo para a memória, que encontrou no patrimônio um espaço de se revelar e constituir a identidade cultural dos grupos sociais, agregando à ideia de patrimônio o sentido de valor, atuando como símbolo que reforça o sentimento coletivo de identidade. Nessa perspectiva, sua preservação configura-se na expressão de reconhecimento de um passado comum compartilhado pelos membros do grupo.

Assim, a relação entre memória e identidade evocada pelo patrimônio cultural está pautada nos sentimentos de pertencimento, fazendo com que os atores sociais que ocupam o mesmo espaço no qual se encontram esses bens reivindiquem, através de ações concretas, a preservação desse patrimônio como documento de história, portanto, merecedor de ser salvaguardado para ser transmitido às gerações futuras. (MENEZES, 1999)

Essa dinâmica de integração entre comunidade local com sua memória e história a partir do patrimônio cultural pode ser evidenciada através do processo de restauração e salvaguarda da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, localizada no município de Itajuípe, região sul da Bahia, através da mobilização social para a preservação desse patrimônio.

           

A Igreja do Sagrado Coração de Jesus: patrimônio vivo da história e da memória de Itajuípe

 

Historicamente, o município de Itajuípe tem sua origem no final do século XIX, em um período em que começaram a surgir notícias de que o desenvolvimento de uma nova agricultura iria reiniciar o desbravamento e povoamento das terras localizadas ao leste da antiga Capitania de São Jorge dos Ilhéus: era o nascimento da “civilização”[3] do cacau.

Situada em um espaço geográfico com grande capacidade para o desenvolvimento da lavoura cacaueira por possuir solo e clima favoráveis ao plantio do fruto, Itajuípe assume um papel relevante na economia da região sul baiana nas primeiras décadas do século XX, e foi a partir do cacau que a localidade se projetou como importante centro econômico regional. Vale ressaltar que nessa época o então povoado de Pirangi, como era denominada a cidade, pertencia ao município de Ilhéus.

No auge da produção cacaueira, por volta da década de 1920, o progresso econômico regional sinalizava um campo propício para a ampliação da área de inserção da igreja católica, e Itajuípe apresenta-se como um desses espaços promissores à expansão do catolicismo na região.  Assim, no início do ano de 1925, doze anos após a criação da Diocese de Ilhéus, o Prelado Diocesano ilheense designou o frei Bento de Souza para que desse início a uma missão de evangelização católica no povoado:

 

Possuía Pirangi grandes estabelecimentos comerciais de compra e venda de cacau, casas de modas, armazéns de molhados e de ferragens. Mais de cem casas de negócio. Firmas importantes, de capital vultuoso e sólida reputação. Importava diretamente das praças nacionais e até estrangeiras.[...] De contínuo realizavam-se no arraial belas e concorridas festividades cívico-sociais, iniciando-se em 1925 a construção de um templo dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. (SILVA CAMPOS, 2006, p. 630)

 

O Livro do Tombo da Igreja Matriz possui um acervo documental baseado na memória de frei Bento, que anotou os primeiros registros sobre o desenvolvimento evangelístico do catolicismo na localidade, como também os primeiros tempos de constituição e consolidação da fé católica no território. Nessas narrativas mnemônicas, o processo de construção da igreja enquanto espaço físico emerge dos escritos do frei, evidenciando aspectos históricos da implantação da igreja católica no local.

Com o objetivo de cumprir a missão ao qual foi designado, Frei Bento  marca simbolicamente o início de evangelização em Pirangi realizando uma missa na casa de um médico da localidade, o que deixa entrever que não existia, até o ano de 1925, nenhum espaço instituído oficialmente para a profissão da fé católica no território. (BARBOSA, 1993).

Nesse sentido, intrínseca a ação evangelística estava o ensejo diocesano de demarcar a presença católica no local através da construção de um templo que congregasse os adeptos do lugar, intenção comprovada pelo fato de que apenas dez dias após a realização da missa por Frei Bento, foi lançada a primeira pedra para construção de um templo da Igreja Católica no povoado: “A Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus é um patrimônio histórico-cultural do município. Em 03 de abril de 1925 na primeira sexta-feira do mês, foi lançada a pedra fundamental dessa igreja.”[4]

Esse ato deu início à instauração não apenas de um espaço físico, mas antes e acima de tudo, de um espaço carregado de simbolismo para os sujeitos diretamente envolvidos em sua construção. Espaço que marca a constituição histórica, cultural e religiosa da localidade, fazendo desse momento inicial a pedra angular para a configuração de memórias individuais e coletivas do sujeito itajuipense, que depois de algum tempo começa a reconhecer a Igreja católica do munícipio como patrimônio vivo da sua história, porque essa relação não se estabeleceu no período inicial em que foram sinalizadas as intenções diocesana de construção do templo.

Essa afirmação se fundamenta nos relatos de Frei Bento, que evidencia que os primeiros tempos foram marcados por dificuldades e problemas enfrentados para erigir a primeira Igreja Católica no município. A grande questão concernente a essa problemática esteve centrada no fator econômico, uma vez que as despesas da construção seriam pagas com donativos dos fiéis.

Sem ter um espaço estabelecido em que pudesse conscientizar a população para contribuir financeiramente com a obra e realizar a coleta de donativos, a alternativa era “esmolar” nas ruas da localidade, prática utilizada pela igreja no período para angariar fundos para suas obras. Nesse empreendimento, Frei Bento e os moradores locais que participaram dessa etapa inicial foram hostilizados por parte da comunidade itajuípense, que não se mostrou sensível, em princípio, ao projeto do frei:

 

Difícil será de crer se se disser que, durante um ano inteiro, com pouquíssimas exceções, não houve em Pirangi quem espontaneamente desse nem seque 10$000 para as obras da igreja. Quase todo dinheiro foi esmolado com sacrifício fora do Distrito, na sua maior parte proveniente de espórtulas de batizados, casamentos, etc. (JOSÉ NETO, 2006, p. 14)

 

            Os empecilhos enfrentados não desanimaram o frei nos propósitos de construção do templo, e mesmo com a falta de envolvimento de parte dos moradores, frei Bento continuava a utilizar os espaços nas missas em que rezava para conscientizar a população sobre o necessário envolvimento financeiro nas obras da Igreja Matriz, uma vez que sem recursos oficiais para levar o projeto adiante, restava conclamar a população do povoado através da conscientização religiosa.

Esse processo de conscientização passa a acontecer quando um vínculo afetivo entre a população e a Igreja começa a se estabelecer. Os frequentes ritos realizados pelo frei deram a base para a constituição de uma identidade católica na localidade. Congregados em torno de uma concepção religiosa comum e reavivando constantemente os laços com os princípios católicos através das missas, os sujeitos que aderiram ao catolicismo no povoado começaram a perceber a importância da construção de um templo no local, o que futuramente vai dar a base para o reconhecimento dessa Igreja como patrimônio histórico-cultural do município:

Para que exista um patrimônio reconhecível, é preciso que ele possa ser gerado, que uma sociedade se veja  no  espelho de si mesma, que considere seus locais, seus objetos, seus monumentos, reflexos inteligíveis de sua história, de sua cultura (JEUDY, 1999, p.19).

 

O envolvimento cada vez maior de moradores locais com as atividades religiosas, a criação de seções como os Apostolados dos Homens e das Senhoras, presididos por representantes da comunidade, dentre outras ações, acabaram por atrair adeptos para a causa da construção da Igreja e os resultados desse estreitamento das relações entre os sujeitos e a religião geraram um impacto positivo no levantamento de fundos para as obras: “O povo dessa cidade construiu essa Igreja pedra por pedra, desde os mais poderosos ou financeiramente mais abastados, até os mais humildes, de famílias menos conhecidas.”[5]

Além da doação de um terreno por um agricultor local para a construção do templo, os membros da comunidade engajados na causa passaram a solicitar o auxílio financeiro da sociedade itajuipense, que começa a se envolver diretamente com as obras. Além de recursos financeiros, moradores se dispuseram a trabalhar no levantamento do templo, oferecendo sua força de trabalho para construção:

 

A minha mãe carregou pedra para fazer essa igreja, minha mãe chegou aqui em 1927, já trabalhava a respeito da construção da igreja, já tinha os trabalhos, já estava começada a igreja, estava em construção naquele momento.[6]

 

Gradativamente as etapas de construção do templo vão sendo concluídas. Situado em uma parte elevada e central da localidade, a Igreja se projeta como um prédio de beleza singular, compondo a paisagem do distrito de Pirangi. Acredita-se que por volta de 1929 a igreja já estava erigida em sua estrutura central, o que equivale, na arquitetura atual, a parte da nave que vai até o início do altar-mor, visto que a cúpula, a torre e o altar que hoje fazem parte da estrutura foram construídos posteriormente. Em todas as etapas da obra a comunidade esteve envolvida ativamente:

Construção de igreja é coisa demorada, vive exclusivamente da doação de católicos e a comunidade itajuipense é uma comunidade pequena, o mesmo que contribui hoje é o mesmo que contribui amanhã e depois. [...] Aí foram várias campanhas, campanha para a construção do altar, campanha para aquisição de sino, relógio da torre, tudo era na base da campanha, porque senão não conseguia fazer.[7]

 

 Uma década após o início de sua construção, a Igreja destaca-se como um dos principais prédios do local: “Os prédios importantes do arraial são o da maçonaria e a formosa igreja matriz, construída a esforço dos beneméritos frades de São Francisco, que ali têm uma residência (SILVA CAMPOS 2006, p. 790)”.

A presença de frades franciscanos no município foi de grande relevância para as obras da paróquia, uma vez que os frades que vieram para o povoado eram de nacionalidade alemã, e percebendo o esforço da comunidade para a construção do templo decidiram solicitar de uma instituição da Alemanha auxílio financeiro para as obras e durante toda a fase inicial dos trabalhos a comunidade contou com o apoio econômico dessa instituição.

            Considerada como parte constitutiva da história e memória de Itajuípe, cerca de oito décadas após a sua construção a Igreja do Sagrado Coração foi tombada como patrimônio histórico, artístico e cultural da cidade através  da Lei Municipal n° 646 de 27 de dezembro de 2000.

Entretanto, a oficialização do prédio como patrimônio cultural não garantiu recursos que viabilizassem ações efetivas de preservação da Igreja, que já mostrava sinais avançados de degradação:

 

A participação das pessoas envolvidas nos processos de reconhecimento patrimonial é de importância fundamental, uma vez que o valor cultural das referências é dado não somente pelos técnicos especializados, utilizando critérios próprios de seus respectivos ofícios, mas principalmente pelo valor de testemunho histórico e de concentração de significados atribuídos pelo grupo social ao bem tombado. (CANANI, 2005, p. 16)

 

Nessa perspectiva, diante de um processo gradual de deteriorização do prédio, no ano de 2007 a comunidade local se mobilizou para empreender um movimento de preservação do templo, em uma luta para manter vivo um patrimônio que faz parte da história do município e  que é significativo para a memória e identidade dos seus moradores, compreendendo, de fato, uma efetiva ação preservacionista baseada no sentimento de pertencimento entre o grupo social e seu patrimônio cultural.

 

 Sentimentos de identidade e pertencimento: restauração e preservação da Igreja do Sagrado Coração de Jesus

                       

A constituição de um elo de ligação entre comunidade e legado histórico-cultural acontece a partir  do re-conhecimento desse patrimônio pelos membros dessa comunidade, ou seja, conhecendo esse legado ao mesmo tempo que o reconhece como elemento constitutivo da sua história, portanto referência de memória e identidade (MENESES, 2000). Esse processo só se torna efetivo quando o patrimônio tem a capacidade de oferecer um sentido identitário à comunidade local:

 

Se essa comunidade pára por qualquer motivo de estabelecer os laços históricos necessários e passa a não se identificar com os seus lugares de memória, os significados são perdidos e o seu patrimônio deixa de cumprir uma função social essencial que é a manutenção da identidade do local. (MARTINS, et al.[s.d] p.08)

 

 

            Assim, a manutenção da funcionalidade social do patrimônio cultural, tanto em seu uso original como na ressignificação dessa função, torna-se pressuposto fundamental para a sua salvaguarda, possibilitando que os vestígios do passado sejam apropriados pela comunidade como marcas que revelam a sua trajetória história, constituindo a memória coletiva do lugar. E foi sob essa ótica de ligação entre comunidade e história local como recurso efetivo de preservação patrimonial que foram empreendidas, pelos moradores locais, ações de salvaguarda da  Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

            Na busca por entender os fatores intrínsecos da relação memória, história e identidade presentes no processo de restauração do templo, essa pesquisa buscou apreender a visão de distintos sujeitos pertencentes à comunidade itajuipense e de alguma forma envolvido com as ações preservacionistas.

            O recurso metodológico para o levantamento da percepção de moradores locais sobre o processo de restauração da Igreja, bem como a relação afetiva desses sujeitos com a Matriz do Sagrado Coração de Jesus, foi o questionário subjetivo, composto de cinco questões abertas, além de entrevista oral com moradores que tem um trabalho desenvolvido no âmbito da comunidade católica ao longo do tempo.

            Patrimônio vivo e presente na vida da comunidade, a restauração passou a ser uma necessidade iminente diante dos problemas estruturais que vinham sendo identificados no prédio. Os primeiros passos da restauração foram dados no ano de 2005 com o padre Laudelino Neto, responsável pela paróquia na época. No decorrer da pesquisa, vários depoentes enfatizaram os alertas que padre Laudelino dava a comunidade sobre a degradação do prédio, iniciando assim um processo de conscientização sobre sua necessária restauração. A ação mais contundente empreendida pelo padre foi uma campanha em que conclamava a comunidade com o seguinte questionamento “Você quer restaurar sua Igreja ou deixar que ela se torne uma ruína?”[8]. Essa se tornou uma ação emblemática para despertar na comunidade o desejo de restauração, que começa a se concretizar dois anos mais tarde:

 

Havia a indiscutível necessidade de trabalhos de restauração, considerando-se ser a Matriz Sagrado Coração de Jesus a edificação mais bonita e mais importante da cidade. [...]. Localizada em local privilegiado nossa Matriz é mesmo um monumento histórico desta cidade.[9]

 

Por reconhecer a importância desse patrimônio e do significado que ainda representa à localidade, atuando como um sistema vivo de representação simbólica, o novo padre que assumiu a paróquia, o Sr. Antonio Carlos conhecido como Tota, organizou no ano de 2007, juntamente com membros da comunidade local, uma campanha para a restauração do templo, que encontrava-se em estado avançado de degradação:

 

Já no dia da minha posse caiu um pedaço de reboco quase que na minha cabeça. Depois caiu um pedaço de alguma parte da torre sobre o forro, as senhoras estavam rezando dentro, foi um alarido danado. Então com permissão do bispo eu consegui interditar a Igreja, fomos celebrar no salão e começamos a obra de reforma.[10]

 

 

            As atividades começaram com uma solicitação ao bispo da Diocese de Ilhéus para a interdição do prédio, já que a reforma implicaria a realização de trabalhos desde a fundação ao teto da Igreja. Depois de autorizada a interdição, padre Tota indagou, em uma missa, se a comunidade queria a reforma ou a restauração, enfatizando que o restauro possibilitaria a manutenção e recuperação de aspectos originais do templo. Aprovada a restauração, em uma missa solene o padre fechou as portas da Igreja para que as atividades tivessem início, e relembra: “No dia que nós fechamos essa igreja na interdição eu vi essa comunidade chorar um pranto copioso [...] eu vi a comunidade chorar em peso, eu nunca vi uma coisa dessa.”

            As atividades ritualísticas passaram a acontecer no salão paroquial e os trabalhos tiveram início no ano de 2008, quando foi possível levantar  recursos para a obra. Um trabalho gradual de sensibilização da comunidade sobre a relevância histórica e social da Igreja foi realizado, o que envolveu parte significativa dos moradores locais no processo de restauração, inclusive com doações de verbas para que os trabalhos de recuperação pudessem ser desenvolvidos. Sensibilizada, a comunidade enviou donativos financeiros para a obra, fator fundamental para que a salvaguarda do patrimônio fosse empreendida:

Por a comunidade ter laços afetivos com a Paróquia, ela está sempre envolvida diretamente com todos os projetos e realizações que vem acontecendo desde o ano de 2008, com o slogan “O Zelo pela casa do Senhor nos consome”, baseado no Salmo 69.” [11]

 

Esse envolvimento só foi possível porque a Igreja fez e faz parte da história individual e coletiva de diferentes sujeitos: “Foi nessa Igreja que dei os meus primeiros passos para o batismo, recebi a confirmação através da crisma, recebi a minha primeira eucaristia e o sacramento do matrimônio.”[12]

 Assim, o patrimônio histórico-cultural torna-se um indicador empírico da memória. Sua existência auxilia na construção da identidade, do sentimento de pertencimento a um grupo humano, dentro de uma historicidade delineada no tempo e no espaço. Sua preservação só se torna possível quando os indivíduos da sociedade o reconhecem como parte da sua história, quando o passado é evocado através desses lugares de memória e quando a identidade é percebida nessas realizações concretas:

 

Eu fui criada pela minha avó naquela rigidez antiga na criação, então eu não tinha outra diversão na minha vida, passeio, atividade e distração que não fosse a Igreja. Tudo na minha vida girava em torno da Igreja.[13]

 

A presença da Igreja no cotidiano dos moradores, exercendo sua função social ao longo tempo, fez e faz com que ela seja reconhecida como patrimônio local, evocando inclusive as marcas simbólicas que foram instituídas ao longo do tempo, como o som das badaladas do sino ainda presente na memória de alguns cidadãos itajuipenses:

 

Se trata de um patrimônio da comunidade, tombado como prédio histórico e recuperado com a ajuda da comunidade católica e de outros setores. Hoje o trabalho está sendo direcionado para a recuperação da torre e seus equipamentos, principalmente do relógio e seus quatros mostradores que antes norteavam os moradores indicando as horas através de suas badaladas.[14]

 

            O apelo à memória dos sujeitos da pesquisa deixa entrever a intrínseca relação estabelecida entre a história coletiva de Itajuípe  e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Através das lembranças de indivíduos que ao rememorarem suas vidas cotidianas nos apresentam um mosaico de acontecimentos que tiveram o templo católico como palco central, podemos perceber laços afetivos instituídos entre comunidade e religião:

 

Sou católica de nascimento, tradição assim vem do tempo dos meus bisavós. [...] Minha família é muito católica. Lembro-me que na festa do padroeiro, meu pai era uma pessoa simples, um administrador rural, mas lembro-me bem que ele comprava roupa pra gente, pra essa festa do padroeiro nós usávamos tudo novo, inclusive ele, usava novo até o chapéu. Festa do Sagrado Coração de Jesus. É realmente a tradição e a fé[15]

 

            Memória constituída não apenas pela vivência direta com os acontecimentos que marcaram o processo histórico do lugar, mas significativa também porque faz parte da tradição oral perpetuada no âmbito familiar:

 

Desde pequena fui criada seguindo as leis de Deus e participando ativamente da Igreja-nós e Igreja-templo, junto com meus pais e minhas tias, elas que participaram da construção dessa Igreja, lembro que tia Sinhá dizia que carregou tijolos para esta construção. [...] Lembro dos mais antigos comentando das festas religiosas, procissões e missas que aconteciam nesta Igreja, a sua importância para a comunidade, a fé das pessoas, o início com os frades e depois os padres continuando a missão.[16]

 

            Permeando as narrativas mnemônicas de sujeitos itajuipenses ouvidos nessa pesquisa, a relevância que a comunidade concede a Igreja Católica do município fica evidenciada pela afetividade presente nos relatos, carregados de detalhes saudosistas daquilo que foi e ao mesmo tempo projetando a esperança naquilo que permanecerá da Matriz do Sagrado Coração de Jesus. Por isso o esforço coletivo para a sua preservação, para que as gerações futuras tenham acesso a sua história através de um patrimônio cultural que tem grande representatividade para a memória, cultura e identidade do município.

            No ano de 2010 a Igreja foi reaberta e devolvida à comunidade quase que totalmente restaurada: os alicerces e o teto foram refeitos, o piso foi trocado mantendo o seu design original, apesar de utilizar material diferenciado por não se encontrar mais no mercado o mesmo material usado na primeira construção. Os trabalhos continuaram e em 2012 novos bancos foram comprados. Ainda falta a restauração do altar e da torre, ações que serão desenvolvidas gradualmente.

            Vale ressaltar que durante a pesquisa foi evidenciado que grande parte da comunidade itajuipense, católica ou não, se sensibilizou com os trabalhos de recuperação da Igreja Matriz e participou ativamente de sua restauração, o que deixa entrever que o valor histórico e cultural do patrimônio transcende a um grupo religioso específico.

Assim, podemos afirmar que a Igreja do Sagrado Coração de Jesus é um patrimônio cultural da cidade de Itajuípe, tornando-se, portanto, elemento fundamental para a memória coletiva do local. Sua existência remete ao grupo um sentimento comum de pertencimento a um espaço e a um grupo social específico. Sua preservação só se tornou possível porque os indivíduos da localidade a reconhecem como parte integrante da sua história, memória e identidade.

 

Algumas considerações finais:

 

A iniciativa da comunidade local só foi possível por ter a Igreja do Sagrado Coração de Jesus um significado vivo para parte expressiva dos moradores do município, onde os sentimentos que o patrimônio evoca são transcendentes, ao mesmo tempo em que sua materialidade povoa o cotidiano e referencia fortemente a vida das pessoas da comunidade.

         Conjugando em si o histórico, o cultural e o sagrado, a Igreja permaneceu no exercício de sua função religiosa, mantendo vivo no grupo os ritos e preceitos reconhecíveis e aceitáveis à parte significativa dos moradores, tornando-se espaço onde a cultura, através das manifestações religiosas, é frequentemente vivida e a memória evocada, fazendo com que o grupo social reconheça na Igreja, enquanto patrimônio material (estrutura física) e imaterial (crença), uma referência de identidade, reivindicando e empreendendo ações para sua salvaguarda.

            A Igreja do Sagrado Coração de Jesus despertou, antes de tudo, o sentimento de grupo na comunidade de Itajuípe. Sua restauração e preservação representa uma possibilidade de afirmação desse grupo perante outras culturas, revelando o que lhe é peculiar através da sua história, seus resquícios do passado ainda vivos no presente, e a garantia da sua sobrevivência para as gerações futuras que ocuparão esse mesmo espaço.

            A restauração da Igreja só se tornou possível porque a comunidade a reivindicou e se mobilizou para que ela se concretizasse, reconhecendo no seu patrimônio uma evidência de sua história e sua cultura.

O que caracteriza um patrimônio é a capacidade intrínseca de referenciar, de remeter os atores sociais de um determinada localidade a um passado compartilhado, porque relata, através de vestígios, um momento anterior de construção de um lugar comum para todos que fizeram, fazem ou farão parte da trajetória histórica dessa sociedade em todos os seus âmbitos. E sobre esses aspectos, a Matriz do Sagrado Coração de Jesus se projeta como patrimônio vivo da comunidade itajuipense.

           

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ROSENDAHL

 

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