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Saúde

 
 
Lixão, um problema de todos nós
Fonte: CB

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Estradas de terra cortam o Lixão da Estrutural de fora a fora. Por elas trafegam caminhões abarrotados de resíduos. O ar é insuportável, devido ao cheiro azedo misturado aos gases provenientes de decomposição de produtos descartados, principalmente domésticos. Há uma energia pesada no local.

As condições insalubres, contudo, não impedem a presença de cerca de 2 mil homens e mulheres, que disputam cada metro quadrado do segundo maior lixão a céu aberto do mundo e o maior da América Latina, em busca da sobrevivência. Essa rotina extenuante e retrato da exclusão social são expostos pelo Correio na série de reportagem Lixão, problema de todos nós, publicada a partir desta quarta-feira (10/5).

O Lixão da Estrutural, em processo de desativação, está a 15km da Praça dos Três Poderes, centro das decisões políticas do país e coração da capital da República. É tão grande em volume que fica atrás apenas do Lixão de Jacarta, na Indonésia. A diferença é que a população de Jacarta é seis vezes maior do que a do DF.

O depósito improvisado nasceu praticamente com Brasília. Passados quase 60 anos, o espaço acumula 40 milhões de toneladas de detritos. O maciço — nome técnico para a parte central onde é disposto o lixo domiciliar — tem 55m de altura.

O papel dos catadores

Os cerca de 2 mil catadores de material reciclável do Distrito Federal também têm papel fundamental para a conservação do meio ambiente. O futuro da profissão, porém, segue incerto com o fechamento do Lixão da Estrutural

“Agora que os ambientalistas estão tomando consciência do nosso papel para o meio ambiente.” Essa é a opinião de uma peça importante no processo de reciclagem do lixo no Distrito Federal. Presidente da Construir, uma das nove cooperativas autorizadas a coletar material reciclável nos galpões prometidos pelo Governo do Distrito Federal (GDF), a catadora Zilda Fernandes de Souza, 49 anos, sabe da relevância da categoria para a natureza. São esses trabalhadores, que, de alguma forma, cuidam do meio ambiente, coletando e separando o que é descartado pela população.

A presença dos catadores no lixão aponta para condições insalubres de trabalho, com pessoas se misturando diretamente a objetos e resíduos. “A gente não pode olhar só para a eficácia social do que representa esse material na vida das pessoas”, alerta Sylmara Lopes Francelino Gonçalves Dias, professora do curso gestão ambiental e do programa de pós-graduação em ciência ambiental e sustentabilidade da Universidade de São Paulo (USP). Para ela, a remoção desses materiais recicláveis é fundamental para diminuir os danos ao meio ambiente.

 

TRÊS PERGUNTAS PARA


Kátia Campos, 
diretora do Serviço de Limpeza Urbana 

Quais as garantias que os catadores terão de que todos serão contemplados? 
É uma determinação do governo de dar a oportunidade aos catadores, que hoje estão trabalhando de forma inadequada, em um espaço que contemple a segurança do ponto de vista técnico, ambiental e de saúde pública. A garantia é que isso é prioridade do governo. 

O que o governo vai fazer para ter coleta seletiva na cidade no prazo? 
Até outubro, vamos ampliar a coleta seletiva com catadores e com empresas contratadas. A partir de outubro, o GDF está com edital na praça para ter coleta seletiva em 100% das regiões administrativas. Antes de outubro faremos o que for possível com as cooperativas de reciclagem. 

O que será feito para educar as pessoas sobre a coleta seletiva? 
Os novos contratos preveem que a própria empresa que fará a coleta seletiva informe aos moradores, de três em três meses, o dia e horário da coleta. Está previsto no edital.

 

Muitos não fazem ideia da importância da atividade dos catadores do Lixão da Estrutural para a sustentabilidade. No entanto, a contribuição deles, nesse aspecto, é explicada de maneira simples, garante Zilda. “Nós ajudamos tirando o que é ruim para o meio ambiente. É o mesmo material que a gente pega no lixão para vender. Se a gente não fizesse isso, seriam 500 anos para ser dissolvido na terra”, diz.

Diariamente, 2,8 mil toneladas de lixo são despejados no Lixão da Estrutural, de acordo com o Serviço de Limpeza Urbana (SLU). Por mês, cada catador recolhe cerca de 2 mil toneladas. Porém, o trabalho manual sobre grandes montes de entulho não garantem que todo plástico, isopor e papelão serão levados para reciclagem. Com o Aterro Sanitário de Brasília, em Samambaia, a promessa é de que esse material passe por uma triagem mais rigorosa.

Sobrevivência

 

Os centavos recebidos antes da crise financeira — que reduziu o volume do lixo de qualidade e, consequentemente, atingiu a renda desses catadores — têm agora a chance de aumentar. O plano do GDF é que, ao ingressarem em cooperativas, os profissionais sejam favorecidos com a coleta seletiva de lixo, ao mesmo tempo que o meio ambiente.

 

Nessa relação, quem fica atrás é a sociedade. “Quem ganha mais ganha é a indústria, que paga pouco pelo material, que não podemos julgar apenas pelo valor”, comentou Sylmara, a especialista da USP. “Precisamos mesmo fechar os lixões no Brasil inteiro. O que não pode é ignorar as pessoas que sobrevivem disso nessa transição”, conclui.

Foto: Ed Alves/CB/D.A. Press

“Aqui, tudo tem seu lugar”



 

WALDER GALVÃO*

Logo na entrada do Varjão, uma grande construção com muros grafitados recepciona aqueles que visitam a região administrativa. No local, funciona a Central de Reciclagem da cidade. Por dia, um caminhão de lixo chega para despejar os materiais que serão cuidadosamente separados pelos trabalhadores do lugar: 24 mulheres e um homem. Do lado de fora, os sacos são abertos e despejados dentro de uma esteira. A plataforma transporta os resíduos para o interior do edifício. Com as mãos enluvadas, a catadora Dinorá Borges, 56 anos, começa a divisão dos itens. “Em um saco, colocamos os papéis coloridos e em outro os brancos. Os jornais e as revistas também precisam ficar em locais diferentes. Aqui, tudo tem seu lugar, garrafas pet, plásticos mais duros e moles, latas e latões não podem ficar misturados”, explica.

Natural de Minas Gerais, Dinorá chegou na capital do país há 50 anos. No trabalho, não deixa a vaidade de lado. Piercings na sobrancelha, vários brincos na orelha e uma tatuagem de estrelas no pescoço compõe o visual da catadora. Com calça verde, camiseta branca, rabo de cavalo e uma sandália crocs, ela retira os materiais da esteira, porém, não consegue esconder a chateação por ter quebrado uma das unhas, caprichosamente pintadas de cinza. “Isso acontece, porque trabalhamos de luva e ela acaba apertando a ponta do dedo. Mas os perigos não são só esses. Muita coisa chega aqui misturada, minha filha, que fica aqui com a gente, furou o dedo em uma agulha esses dias”, lembra.

Ela mora a três quadras de distância do galpão e vai a pé todos os dias para o local. “A gente trabalha de segunda-feira a sexta-feira, de 7h às 5h. O nosso salário é quinzenal, dá pra tirar uns R$ 200, mas não dá nem um salário mínimo”, afirma. Atualmente, Dinorá vive com o marido, que é pedreiro, e uma neta. Ela conta que trabalhava como doméstica quando chegou em Brasília, mas há dois anos iniciou no Central de Reciclagem. “Meu sonho é ter uma casa de dois andares e um carro. Também queria que a situação de trabalho dos catadores melhorassem. E, se não for pedir demais, queria conhecer o cantor Gusttavo Lima”, brinca. Dinorá conta que os parentes não sabem que ela é catadora e um sorriso sem graça denuncia o porquê. “Tenho irmãos fora do DF que vivem bem, que têm carros e casas de até oito quartos. Mas eu tenho esperança de que um dia minha situação também vá melhorar”, acredita.

 

* Estagiário sob supervisão de José Carlos Vieira

 

“Deve haver uma solução equilibrada”




KETHERYNE MARIZ, especial para o Correio

 

O Brasil é o quinto maior produtor de lixo do mundo. Perde apenas para Estados Unidos, China, Índia e Alemanha, segundo o doutor pela Universidade Politécnica de Madrid e coordenador do Grupo de Resíduos Sólidos da Universidade Federal de Pernambuco, José Fernando Thomé Jucá. Segundo ele, o tratamento de resíduos, no setor de limpeza pública, movimenta, em todo o território nacional, em torno de R$ 30 bilhões e gera cerca de 350 mil empregos, com crescimento de 3% a 5% ao ano, apesar da crise econômica.

De acordo com José Fernando, que coordena o projeto de pesquisa “Alternativas tecnológicas para o tratamento dos resíduos sólidos urbanos no Brasil, com base na experiência da Europa, dos Estados Unidos e do Japão”, Brasília caminha no rumo certo, mas com lentidão. Para ele, o Lixão da Estrutural não deve ser inutilizado de imediato. “O aterro ainda não é suficiente para atender a todos os resíduos do Distrito Federal. Brasília é uma das cidades que mais geram lixo no Brasil. Diariamente, são recolhidas 3 mil toneladas”, afirma.

Uma falha para a falta de tratamento de resíduos, apontada por Jucá, seria a escassez de pesquisas e tecnologias a respeito do assunto. “Há 82 mil doutores no país em todos os setores. Desse total, apenas 1,5% trabalha na área de resíduos sólidos. Somos pobres tecnicamente no setor. Na prática, é importante pensarmos na redução da quantidade de restos para os aterros, mas também em gerar novos materiais e reaproveitá-los, além de soluções para geração de energia, impactos ambientais e redução de emissões. Isso traria ganhos ambiental, social e econômico”, detalha.

 

Palavra de 
especialista 



Trabalhador invisível 


“Hoje no Brasil, somos campeões de reciclagem em vários segmentos e a principal razão disso é que temos o catador lá na ponta desta cadeia coletando o que sobra do nosso consumo e ganhando muito pouco. São cadeias, hoje, muito bem estruturadas, começamos com o alumínio no valor econômico enorme para a indústria de um modo geral, e também toda a cadeia da reciclagem gerando um valor econômico. Então vamos supor que, de R$ 100, ele está tirando R$ 10. É muito desproporcional o ganho da indústria e o ganho do catador. Na linguagem comum, é o dinheiro de pinga. Realmente, eles não conseguem dignamente tirar um prato de comida com esse valor. Seja no Lixão, seja na cooperativa ou seja na rua. O valor que é destinado ao pagamento deste material é irrisório frente ao valor ganho pela cadeia da reciclagem. 
Há uma inversão dessa pirâmide. Quem tem mais trabalho é quem é menos remunerado. O trabalho do catador tem uma importância enorme nessa cadeia, porque recolher esse material é capilarizado. É um em um, é uma latinha por um morador da cidade. E o trabalho do catador, que é o mais valoroso, é fazer esse serviço logístico de buscar uma latinha e fazer esse norte. O maior custo da indústria, nessa questão da reciclagem, é com a logística. O catador faz esse percurso para buscar uma latinha e juntar fardos enormes, nesse trabalho de formiguinha, como chamamos. Ele junta o material, que será transportado de Brasília para uma fábrica em São Paulo, por exemplo.” 



Sylmara Lopes 
Francelino Gonçalves Dias 

Professora do curso 
Gestão Ambiental e do Programa de Pós-gradação em Ciência Ambiental e Sustentabilidade da USP

A preocupação de José Fernando não se resume ao meio ambiente. “Em um aterro sanitário, 10 mil toneladas geram um emprego. Em uma unidade de triagem, 10 mil toneladas geram 350 empregos, mas há poucas no Brasil. Percebo que há um esforço em tentar ocupar os catadores, mas não é fácil. Essa função de catar lixo a céu aberto deverá, com o tempo, acabar. De um lado, existe o fechamento do lixão, mas, do outro, existe a desocupação de quem trabalha lá. Deve haver uma solução equilibrada”, ressalta.

Segundo o especialista, a Alemanha é o país mais desenvolvido no tratamento de resíduos sólidos, com praticamente todo o lixo reaproveitado como energia ou material. Ele pontua que, por trás disso, há desenvolvimento, cultura e educação. Quanto aos Estados Unidos, ainda de acordo com o pesquisador, existem muitos aterros sanitários, quase 2 mil. E, no Japão, não há espaço para esse tipo de local. Os japoneses usam incineradores, que, além de destruírem os restos, geram calor.

Atraso

 

A especialista em resíduos sólidos e professora aposentada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Eglê Novaes Teixeira acredita que, “se compararmos o Brasil com países de primeiro mundo, como, por exemplo, a Holanda, o país está em desvantagem, porém, se comparado a outros de terceiro mundo, como alguns da África, a situação está bem melhor”. Em uma visita a Holanda, em 1985, Eglê constatou que não havia mais lixão. “Eles tinham aterro sanitário, fizeram compostagem, incineração e reciclagem dos lixos”, conta.

 

Para José Fernando Jucá, a solução para alavancar o Brasil no setor seria maior investimento para área. “Precisamos gastar mais com soluções corretas. Geraria empregos e economizaria matéria-prima. Posso dizer que estamos uns 50 anos atrás da Europa, do ponto de vista tecnológico de tratamento de resíduos”, conclui.

Faça a sua parte

Outra solução para diminuir a quantidade de lixo orgânico que vai para o Aterro da Samambaia é cada cidadão fazer sua parte. Ao fazer a separação correta do que é descartado ainda dentro de casa, a pessoa não só ajudará os catadores de recicláveis lá dentro do galpão, como poderá usar o sistema de compostagem. Porém, muitos acreditam que o processo é complicado, demorado e até com mal cheiro. Foi pensando em levar mais comodidade na hora de guardar as sobras de cascas, frutas e hortaliças, que dois jovens se uniram e criaram a start up Compostare.

O engenheiro civil Lucas Moya, 25 anos, resolveu, durante as aulas voltadas para sustentabilidade, pensar em técnicas para trazer o que muito se usa em fazendas para a zona urbana de Brasília. Também o internacionalista Pedro Henrique Cunha, 25, ficava incomodado ao ver o quanto de lixo reaproveitável era desperdiçado. O comum entre os dois era a vontade de fazer a comunidade pensar no que acontece depois que colocamos o saco de lixo na porta de casa. “O que queríamos é dar um melhor destino para o lixo orgânico, que pode ser muito mais útil”, comentou Pedro.

Daqui um mês, quem aderir e assinar o serviço do projeto e receberá um balde de 12 litros com tampa hermética, onde deverá guardar restos de produtos específicos. Uma vez por semana, a empresa irá até a casa da pessoa, recolherá o que foi juntado e levará para um pátio de compostagem. Em troca, todos os meses receberá uma muda de hortaliça ou tempero ou um quilo de adubo. “Temos algo simples e que dá para ser feito. Jogando fora esse material, que vai ser misturado e não aproveitado de forma adequado no aterro, é desperdiçar energia e matéria prima”, mencionou Lucas.

O Projeto Compostare recebe doações até o dia 25 por meio da plataforma de financiamento coletivo Benfeitoria. Com meta de arrecadação de R$ 9 mil, a campanha já conseguiu mais de R$ 6 mil e o vídeo promocional conta com mais de 30 mil visualizações. Podem ser usado para compostagem: frutas, grãos e sementes, legumes, verduras, guardanapos e papel toalha, sachê de chá, folhas frescas e secas de hortaliças, borra e filtro de café.

 

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